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Maternidade e modernidade

É incontestável que estamos vivendo momentos onde as mulheres desfrutam de conquistas de muitos e muitos anos pela sua liberdade, independência e autonomia. Eu faço parte desta geração e sei muito bem os frutos bons e ruins que colhemos desta modernidade e da consequente emancipação da mulher.

Dentre inúmeros fatores positivos, cotidianamente observados na rotina feminina (independência, poder aquisitivo, cargos, estudos, participação ativa na sociedade, entre muitos outros), vemos também que a maternidade não é algo que normalmente se equilibra com toda esta transformação.

Cotidianamente em meu consultório, atendo crianças que são fruto de lares bastante desestruturados, onde o fator principal desta dificuldade é a ausência materna. Sim, as mães estão muito ausentes, não só fisicamente como emocionalmente também.

Poucas são as mães que conseguem desfrutar de sua gravidez sem a correria e a cobrança de uma carreira. Muitas já iniciam a maternidade podendo muito pouco se dedicar a ela. É sabido que desde o ventre a criança já é grandemente influenciada pelo ritmo e humor da mãe. Talvez seja por isso que tantas crianças já nasçam aceleradas, agitadas e ansiosas.

Após o nascimento uma nova fase se inicia, e é considerada a mais importante no desenvolvimento cognitivo e emocional de uma criança, principalmente até os dois anos de idade. Poucos são os bebês que conseguem ser amamentados adequadamente ao menos até os seis meses de idade. Grande parte das mães se dividem neste momento entre o bebê e o retorno ao trabalho, o que pode transformar a experiência tão importante da amamentação, como algo insuficiente.

Além dos benefícios na saúde física, estudos comprovam que o adequado vínculo entre mãe e filho neste momento, é um dos fatores decisivos para a saúde emocional deste indivíduo por toda a vida. Neste momento ele tem a rica oportunidade de ser olhado, cuidado, acalentado, acariciado e alimentado da maneira mais perfeita que poderia existir. Crianças amamentadas com mamadeira, e até por outras pessoas que não seja a mãe, tendem a sinalizar esta insatisfação com choros, dores e irritabilidade constante.

Podemos perceber os benefícios da união mãe e filho também nas outras etapas do desenvolvimento. Cada aprendizagem se tornará muito mais proveitosa com o acompanhamento do olhar materno. Os primeiros passos, as primeiras palavras, as mudanças na alimentação, o cuidado no trocar de fraldas, as primeiras aprendizagens formais através da escolaridade, serão significativamente melhor aproveitados e vividos pela criança, com a presença constante desta mãe nestes momentos.

Nunca é tarde para refletirmos estes fatores e podermos investir no relacionamento enquanto é cedo, em prol do futuro das novas gerações. Apesar de financeiramente atrativa, a modernidade não tem feito tão bem à estruturação da família de uma maneira geral. Crianças têm sido criadas sozinhas, por assistentes, instituições, irmãos, avós e com inúmeros outros recursos que de maneira alguma poderão substituir a figura materna. Diminuir o ritmo talvez seja uma escolha aparentemente não rentável momentaneamente, mas que produzirá uma riqueza maior num futuro não muito distante.

 

Deborah Ramos | Psicopedagoga e Psicanalista Infantil

www.deborahramos.com